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"Sonderkommando" de Shlomo Venezia - Opinião

por Tânia Tanocas, em 02.02.17

Sinopse

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A minha opinião:

Não foi esquecimento o facto de só agora estar a escrever a minha opinião acerca da primeira leitura do ano de 2017 para o projecto #hol72, foi completamente intencional, pois para mim este foi o pior relato acerca do Holocausto que eu alguma vez li até hoje.

 

No final do ano passado vi “O Filho de Saul”, um filme Húngaro de László Nemes, este filme chamou a minha4 (3).jpg atenção porque, inconscientemente, nunca tinha pensado naqueles presos que tinham de lidar com o “trabalho sujo” dos alemães. Confesso que o filme mexeu bastante comigo e logo comecei uma pesquisa mais pormenorizada em saber quem foram estas pessoas, como eram obrigadas a lidar com a morte e o sofrimento em “primeira mão” e como se organizavam. E foi assim que me deparei com este livro, o relato de Shlomo Venezia, um homem que trabalhou nas câmaras de gás de Auschwitz, agrupado no Sonderkommando.

 

Este livro é o registo de uma sucessão de entrevistas realizadas por Béatrice Prasquier, jornalista francesa, que entre 3 de Abril e 21 de maio de 2006 fez a Shlomo Venezia. Por isso a forma como está elaborado é em jeito de pergunta / resposta. Tendo ainda duas notas históricas bastante interessantes que nos situa em termos intemporais, uma por parte de Marcello Pezzetti, que se intitula de “A Shoah, Ausschwitz e o Sonderkommando” e outra por Umberto Gentiloni que nos explica “A Itália na Grécia: Pequena história de um grande fracasso”, ambas as notas são imprescindíveis para compreendermos o percurso de vida de Shlomo Venezia.

 

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Sonderkommando é a denominação dada a um grupo de pessoas que actuavam nos campos de concentração sob o comando dos nazis. Eram recrutados entre os prisioneiros recém chegados, mais robustos e tinham como função a execução das tarefas mais críticas, tais como enterrar os corpos dos prisioneiros mortos, limpeza das câmaras de gás e outros serviços aos quais os alemães não ousavam executar. Devido à condição de grupo especial, tinham alguns privilégios, tais como, uma alimentação um pouco melhor, melhores condições no alojamento, regalias essas que aos olhos dos outros prisioneiros eram vistas como se o Sonderkommando fossem uma ramificação dos nazis, isto é, para muitos o Sonderkommando era vistos de igual crueldade como os actos praticados pelos alemães.

 

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Entretanto, não duravam muito nesta função, integravam de tempos em tempos, as listas de pessoas a serem exterminadas após algum tempo de serviço, sendo substituídas por novos componentes que mais adiante eram mortos e substituídos por novos membros, e assim sucessivamente. Tudo para manter em segredo as operações de extermínio do conhecimento dos outros prisioneiros do campo de concentração, eram também mantidos isolados.

É angustiante ler o que Shlomo Venezia nos vai relatando, muitas das vezes não consegui avançar na leitura, fiquei chocada com a “visualização gráfica” de algumas cenas relatadas.

 

“ Foi apenas alguns dias após a nossa chegada. Um Kapo procurou-nos e disse que, se quiséssemos fazer um trabalho suplementar, nos era dado uma dupla ração de sopa. Todos quisemos ir, pois a fome era maior do que tudo. Fui incluído nas dez pessoas escolhidas para executar o trabalho.(…) 6c0b4d5bfc1fd4eb55234a9e05bac9aa.gifO Kapo fez-nos pegar numa carroça, como as usadas para transportar feno. Só que para puxar a carroça éramos nos que estávamos no lugar dos cavalos. Fomos ate um barracão na ponto do sector de quarentena. Tinha o nome de Leichenkeller: quarto dos cadáveres. Ao abrirmos a porta, um cheiro atroz nos apertou a garganta, era o fedor de cadáveres em decomposição. (…) Os cadáveres eram deixados naquele lugar até serem levados ao Crematório para serem incinerados. Os cadáveres podiam ficar ali, apodrecendo, durante 15 ou 20 dias. Os que estavam mais por baixo encontravam-se a num estado de decomposição avançado, por causa do calor.

Se soubesse que o trabalho “suplementar” consistia em tirar aqueles cadáveres para levá-los até ao Crematório, teria preferido morrer de fome, em vez de fazer isto.”

 

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Quando Shlomo Venezia nos relata que teria preferido morrer de fome a ter trabalhado no Sonderkommando, já deve dar para perceber o quanto vai ser duro ler o seu relato. Neste livro ele vai aprofundar como era a chegada dos prisioneiros ao campo, quais as patifarias utilizadas pelos soldados nazis para diminuir as reacções diante da morte de quem se aproximava nas câmaras de gás, como eram as selecções de quem viveria (por mais algum tempo) ou morreria imediatamente, o terror, medo, a rotina dos crematórios e o facto de que os próprios integrantes do Sonderkommando, de tempos em tempos, também seriam eliminados.

 

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Durante a sua narração, deparamos com o nome de outro Sonderkommando.

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David Olère foi um pintor e escultor judeu, nascido na Polónia em 1902. Foi prisioneiro dos Alemães, no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, de 1943 a 1945. Tornou-se o prisioneiro n.º 106 144 e concedido ao serviços do Sonderkommando em Birkenau, primeiro no Bunker 2 e mais tarde no Crematório III.

Libertado pelas tropas norte-americanas em princípios de Maio de 1945, empenhar-se-ia depois em testemunhar, através de desenhos e pinturas, a pavorosa experiência que tinha vivido no Sonderkommando. Faleceu em França em 1985.

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Shlomo Venezia nasceu em Salonica, na Grécia, a 29 de Dezembro de 1923, no seio de uma família judaica. A 11 de Abril de 1944, com 21 anos, Shlomo e alguns elementos da sua família chegaram ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, onde integrou o Sonderkommando. O autor dedicou-se, a dar a conhecer ao mundo o que foi o horror do holocausto. Faleceu a 1 de Outubro de 2013 em Roma, Itália.

 

 

Nota: As imagens deste post são desenhos de David Olère, elas ilustram bem o quanto foi traumatizante fazer parte do Sonderkommando e relatam bem o que os olhos deste sobrevivente não conseguiram esquecer. Por estas imagens podem ter uma pequena ideia do que vão encontrar no livro de Shlomo Venezia. 

Um dia, vou fazer um post só com imagens de Davis Olère, acho que espelham bem o sentimento de quem passou pelo Holocausto, só de olhar para elas dà um aperto no coração e na alma...

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publicado às 22:45



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