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"Uma Duas" de Eliane Brum - Opinião

por Tânia Tanocas, em 26.03.17

Quinta leitura para o desafio #marçofeminino

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Opinião:

Por norma escreve-se e lê-se o lado bom entre o relacionamento de pais e filhos, este livro é uma (boa) excepção. Aqui não há metáforas bonitas para escamotear a verdade que se quer contar, não existe clichés de "viveram felizes para sempre", aqui encontramos a realidade tal e qual como ela é, ficando tão paranóicos e agonizados tanto ou mais quanto as personagens desde excelente livro.

 

Quantos de nós vimos idosos largados à sua mercê, quer seja isolados nas suas casas, quer em lares, alguns tão solitários quanto as suas casas. Dos filhos só uma curta visita de tempos a tempos (algum desse tempo alastra-se por anos a fio). Logo vem ao nosso pensamento, como é que um filho faz isto aos seus próprios pais? Pois é, como se costuma dizer "só quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro", ninguém quer saber o que sentem os filhos que fazem tais actos, ninguém acredita naquele ditado que eu concordo a 100 %, "filho és, pai serás" e é aqui que entra a mãe (Maria Lúcia) que através do poder das palavras, começa a escrever textos em que relata a sua infância, adolescência e fase adulta, numa forma de tentar dar a entender ao leitor que só é assim devido a algumas vicissitudes da sua própria vida, nunca houve um diálogo sério com a filha, as duas se afastam porque a mãe nunca soube o que era o poder do amor e a sua forma de amar era tão sem sentido que a filha também acabou por nunca se sentir amada.

 

Atenção, não quero com isto dizer que concordo com o abandono dos idosos, também para lá caminho e não sei o que me acontecerá, mas em vez de criticar, talvez seja melhor primeiro compreender algumas acções, quantas delas surgem em contextos pouco esclarecidos que se arrastaram por longos anos, sem que ambos (pais e filhos) manifestam desejo de remediar o assunto, originando assim casos de solidão na parte mais fragilizada...

 

Dou-me bem com os meus pais, mas nos últimos anos o desgaste da minha tolerância em relação ao meu pai anda em níveis que nunca pensei alcançar, situações que ele condenava nos pais está a fazer o mesmo aos filhos. Para tentarem compreender, a minha relação com o meu pai, foi sempre tipo uma relação de imposição, porque era ele que governava a casa, porque morava debaixo do tecto dele, porque só ele é que tinha e tem razão e desde que achou que o álcool é que é o seu melhor amigo tem sido insuportável, resumindo nunca foi uma relação de amor (não duvido que ele goste de mim, mas nunca o demonstrou), mas sim de um negócio em que ele acha que despendeu o seu dinheiro e tempo na minha educação, saúde e que agora sou eu que lhe tenho de valer com algum retorno da maneira que ele quer. E atendendo ao facto de ter sido sempre uma miúda que não deu grandes dores de cabeça, é com alguma consternação que não compreendo as suas atitudes, infelizmente também não sei como controlar as minhas e com muito receio em relação ao futuro, sinto que é uma obrigação e não algo que se faça naturalmente para demonstrar o meu amor por ele.

 

Bem, tudo isto para realçar que percebo perfeitamente o sentimento de Laura para com a sua mãe, sentimento e acções que a autora soube caracterizar muito bem.

 

Este livro foi uma experiência muito enriquecedora, não se deixem enganar pela capa rosa fofinha, pois vão ter uma leitura dura e crua, o livro é pequeno mas tive que o pousar várias vezes. Tenho lido alguns ebooks em PT/BR e este (até agora) tenho mesmo muita pena de não haver em Portugal e vou de certeza imprimir porque quero sentir a sensação de ler estas palavras perpetuada numa folha de papel.

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Eliane Brum é jornalista, escritora e documentalista. Trabalhou 11 anos como repórter do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e 10 como repórter especial da Revista Época, em São Paulo. Desde 2010, actua como freelancer. Actualmente, escreve artigos para os jornais El País (português e espanhol) e The Guardian (inglês).
Publicou seis livros – cinco de não ficção e um romance -, além de participar de colectâneas de cronicas, contos e ensaios.

 

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publicado às 23:34


2 comentários

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De Jardim de Mil Histórias a 31.03.2017 às 15:35

Já vi este livro por aqui e parece uma boa sugestão.
Vou tentar ler.
Beijinhos e boas leituras
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De Tânia Tanocas a 06.04.2017 às 17:33

Infelizmente só o vais apanhar em ebook com texto BR, para mim não afectou a leitura, mas existe muitas pessoas que não gostam.
Gostei muito, vimos o lado mau da relação mãe/filha, em que muitas vezes são relações que já vêm com maus entendidos do passado e que se alastram pela vida toda.
Beijokas e boas leituras

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