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Opinião:

Demorei pouco menos de 48h para terminar esta leitura, o que para mim é um tempo fantástico. Enredo viciante, leitura compulsiva e excelente entretenimento. Muito dividida e indecisa entre as 4 e 5 estrelas, sendo assim prevalece o meio termo, 4.5 . 

 

Não restam dúvidas, é um livro recheado de emoções fortes, onde o relógio está sempre em constante movimento, de muita acção, adrenalina e inteligência. 

O ponto contra que eu aponto é que senti muito mais afinidade com personagens secundárias do que com a principal. Achei o Wolf um pouco sem carisma para personagem principal...

 

De resto, achei o enredo muito arriscado, mas que sem dúvida ficou perfeito em termos visuais, aquela sensação de impunidade à medida que o tempo vai passando. 

Confesso que alguns nomes que surgem na lista feita pelo assassino são bem merecidos... 

 

"Nos muitos livros de guerra que havia lido, aprendera que mensageiros eram escolhidos não só porque eram espertos e articulados, mas sobretudo porque eram pessoas essencialmente descartáveis." 

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publicado às 21:00

Nunca é tarde... Projecto - #marçofeminino

por Tânia Tanocas, em 09.03.18

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Acho que nunca é tarde para incentivar outros leitores e divulgar este projecto... 

Desde o início do mês de Março que estou empenhada neste desafio, que apesar de já ser repetente, não deixa de ter o mesmo prazer e entusiasmo.  

A impulsionadora, para quem não se lembra, ou não sabe, é a menina Sandra do blog sayhellotomybooks.

 

Até ao momento já completei três leituras e estou a meio de mais duas. 

Leituras completas (ainda sem opiniões):

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I) "A Condessa Sangrenta" de Alejandra Pizarnik

 

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II) Dois contos - "Dores" de Maria Teresa Horta e "Chave de Entendimento para uma Sinfonia Perdida" de Patrícia Reis

 

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III) "O Castelo de Vidro" de Jannette Walls 

 

Leituras em andamento:

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IV) "Caraval" de Stephanie Garber

 

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V) "A Câmara Escura" de Minette Walters

 

Façam óptimas leituras no feminino e dê o vosso contributo com a astag #marçofeminino. 

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publicado às 22:00

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Opinião: 

Tinha este livro para ler à alguns anos, apaixonei-me por Philippe Claudel, ao ler "Almas Cinzentas", "A Neta do Senhor Linh" e "Desiso", a partir daí tudo o que se editou do autor eu adquiria sem querer saber sequer do que se tratava e por incrível que pareça só à pouco tempo descobri que este livro tinha a II Guerra Mundial como um dos panos de fundo.

 

Mas não foi por isso que peguei nele, depois de ter lido "A Morte de Ivan" confesso que fiquei melancólica e desejei ler algo que eu tivesse a certeza que iria adorar. Logo nas primeiras páginas tive a certeza de que tinha feito a escolha certa.

 

"Chamo-me Brodeck e não tive culpa de nada. 

O meu nome é Brodeck. 

Brodeck. 

Por favor, lembrem-se. 

Brodeck."

 

É complicado escrever sobre este livro, acho que nada conseguirá fazer justiça ao seu conteúdo. Só lendo "O Relatório de Brodeck" teremos realmente a noção de que este é mais um livro (injustamente) perdido, sem lhe darem o devido valor. 

 

Numa aldeia (que nunca sabemos o nome), temos a noção de que a guerra terminou há pouco mais de um ano, uma aldeia que fora bastante fustigada, assim como tantas outras, o que distingue essa aldeia de outras é que nenhum desconhecido havia aparecido nos últimos tempos, por isso quando um dia surge um forasteiro com os seus modos e hábitos esquisitos, toda a população fica em alerta. 

 

Desconhecemos o nome deste forasteiro e quais as suas verdadeiras intenções em se instalar na povoação, o que é certo é que este homem vê a sua vida em risco, quando expõe alguns dos seus desenhos, caricaturas que elaborou dos habitantes, só com a ajuda do seu hábito de observação, desenhos que não são bem aceites pelos retratados. 

 

Brodeck, o escrivão da aldeia, é um homem que (infelizmente) vê o destino desafiar a sua vida várias vezes, numa dessas vezes por causa de um simples naco de manteiga, parece surreal, mas por vezes, é nas pequenas coisas que a vida nos dá enormes lições. Será ele que vai deslindar a história da aldeia e dos seus místicos habitantes ao elaborar um relatório a pedido dos homens mais influentes da população. 

 

Mas Brodeck que desde o início afirma que nada tem a ver com o caso, decide não só elaborar um relatório, mas dois, um com a versão que todos querem ler e outro com a verdade que mantém escondido, o leitor vai ficando a par dos dois relatórios ao mesmo tempo, uma viagem não só por entre os habitantes da aldeia, mas também pelos meandros da sua própria vida. 

 

Brodeck, certamente ficará na minha memória, não porque ele implora, muito menos por piedade, mas porque realmente ele merece jamais ser esquecido. 

 

"Internaram-me longe, num lugar do qual se ausentara toda a humanidade e onde só restavam animais sem consciência de que haviam adquirido a aparência dos homens." 

 

"As pessoas falam muito e muitas vezes para não dizerem nada."

 

"A raposa é um animal curioso, sabes. Chamam-lhe matreira, mas na realidade é bem mais do que isso. Os homens sempre a detestaram, sem dúvida por se lhes assemelhar. Caça para se alimentar, mas também é capaz de matar unicamente por prazer."

 

"Habituamo-nos a tudo. Há pior do que o cheiro a merda. Há muitas coisas que não cheiram a nada, mas que apodrecem os sentidos, o coração e a alma sem dúvida mais do que todos os excrementos."

 

"Sei como o medo pode transformar um homem. 

Não o sabia, mas aprendi. No campo de concentração. Vi homens aos gritos, a bater com a cabeça contra as paredes de pedra, a lançarem-se sobre arames cortantes como lâminas. Vi-os defecar nas calças, até se esvaziarem completamente, vomitar, expulsar tudo o que continham de líquido, de humores, de gases. Vi alguns rezar e outros renegar o nome da Deus, cobri-lo de sânies e injúrias. Assisti mesmo à morte de homens. Morreu de medo, depois de ser escolhido ao acaso pelos guardas como o próximo a ser enforcado. E quando o guarda parou à sua frente e lhe disse, rindo: «Du», o homem permaneceu imóvel. O seu rosto não deixou transparecer nenhuma emoção, nenhuma perturbação, nenhum pensamento. No momento em que o guarda começou a erguer o bastão, o homem caiu redondo no chão, antes que o outro lhe tocasse. 

O campo de concentração ensinou-me este paradoxo: o homem é grande, mas nunca estamos à altura de nós mesmos. Esta impossibilidade é inerente à nossa natureza."

 

Passou a ser o livro mais sublinhado dos últimos tempos, decididamente será motivo mais do que suficiente para ser um favorito e um dia fazer uma releitura. 

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publicado às 18:30

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Opinião:

Um livro de não ficção, que mais parece uma ficção de tão inusitado que é.

 

Passava 58 segundos da 1h23 da madrugada do dia 26 de Abril de 1986, iniciava-se a maior catástrofe nuclear da história, o maior desastre tecnológico do século XX, cujos efeitos ainda hoje são sentidos. O reactor n° 4 da central nuclear de Chernobyl era destruído após uma série de explosões, deixando um rasto (invisível) de destruição.

 

"No nosso solo já se encontravam dezenas de toneladas de césio, iodo, chumbo, zircónio, boro, uma quantidade desconhecida de plutónio (os reactores RBMK a urânio e grafite, de modelo usado em Chernobyl, produziam plutónio militar com que se fabricava as bombas atómicas) - no total uns quatrocentos e cinquenta tipos de radionuclídeos. A quantidade equivalia a trezentas e cinquenta bombas largadas sobre Hiroxima." Vassíli Nesterenko, antigo director do instituto de Energia Nuclear da Academia de Ciências da Bielorrússia

 

O comunismo russo ou ditadura socialista, queriam forçosamente ser pioneiros neste tipo de energia, eram tão sedentos de egocentrismo que descuidaram a precariedade do seu funcionamento e dos graves problemas de segurança da central nuclear, não esquecendo também o erro humano, que foi o maior dos culpados nesta tragédia, quer antes, durante e até depois.

 

"Os Japoneses demoraram doze anos até iniciar a operação deste tipo de infraestruturas, nós fazíamos o mesmo em dois ou três anos. A qualidade e a segurança de um obra especial eram iguais à de uma exploração pecuária. Às de um aviário! Quando faltava alguma coisa, descartava-se o projecto e fazia-se a substituição com o que estivesse à mão. Assim, o telhado da sala das máquinas foi coberto com betume. Foi esse betume que os bombeiros tiveram de apagar. Quem é que dirigia essa central nuclear? Na direcção não havia um único físico nuclear. Havia engenheiros electrotécnicos, engenheiros de turbinas, funcionários políticos, mas não havia um único especialista. Nem um único físico..."

 

Foi tão egoísta o heroísmo soviético que não soube proteger a sua população, lançado-a para uma emboscada em nome de sabe-se lá do quê e com a agravante de lançarem o engodo do dinheiro, o que há a temer do que não se vê ou sente, quando a recompensa é mais do que suficiente para alimentar a família durante meses...
Na era soviética, comunismo ou ditadura socialista, o lema das populações é dizerem "nós" e não "eu", só assim conseguimos, tentar, compreender as motivação que levaram as pessoas a alistar-se, voluntariar e acatar as ordens de trabalhos em zonas afectadas, sem qualquer tipo de protecção ou preocupação, cujos efeitos só surgiriam mais tarde.

 

"Está um tractor a lavrar. Pergunto ao funcionário do comité distrital do Partido que nos acompanha:
«O condutor está protegido pelo menos com máscara respiratória?»
«Não, trabalham sem máscaras.»
«Porquê, não as receberam?»
«Qual quê! Recebemos tantas, que vão durar até ao próximo século. Mas não as distribuímos. Para não criar pânico. Senão fogem todos! Vão-se embora daqui!»
«Mas que asneira andam vocês a fazer?»
«Para si é fácil falar, professor! Se for despedido, há-de encontrar outro trabalho. E eu, para onde vou?»
Mas que poder! O poder desmedido de um ser humano sobre outro ser humano. Isso já não é enganar, é travar uma guerra contra inocentes..." Vassíli Nesterenko, antigo director do instituto de Energia Nuclear da Academia de Ciências da Bielorrússia

 

O que fez a "amada" União Soviética, ou não, para proteger as suas populações, o ambiente, fauna e flora envolvente, os países (Escandinávia, Europa Central, Reino Unido, Grécia, etc) que foram atingidos pela nuvem reactora?!
Não são estas respostas que a autora Svetlana Alexievich quer ver respondidas, sobre o acontecimento em si já muito se escreveu, o objectivo deste livro é recolher o quotidiano dos sentimentos, dos pensamentos, das palavras, a vida de um dia comum das pessoas comuns.

 

A autora levou 20 ano a concluir esta obra, encontrou-se e falou com antigos trabalhadores da central nuclear, liquidadores, cientistas, médicos, soldados, cidadãos que residem ilegalmente na zona proibida de Chernobyl, crianças, pessoas comuns com tanto ainda por desabafar, tentou encontrar algum fundo de verdade, consolo e alguma compreensão nos relatos dos muitos anónimos (na altura) que desde o primeiro momento estiveram no teatro das operações e que desde essa data tiveram as suas vidas marcadas, não apenas por uma efeméride, mas por toda a sua existência.

 

Sem dúvida que este livro é um marco na nossa história, desde o prefácio de Paulo Moura (repórter), passando pela introdução histórica, o cunho pessoal da autora ao fazer um capítulo em que se auto denomina de "Uma Solidária Voz Humana" e depois culminando nos relatos impressionantes dos protagonistas.

 

Na era soviética, comunismo ou ditadura socialista, o lema das populações é dizerem "nós" e não "eu", só assim conseguimos, tentar, compreender as motivação que levaram as pessoas a alistar-se, voluntariar e acatar as ordens de trabalhos em zonas afectadas, sem qualquer tipo de protecção ou preocupação, cujos efeitos só surgiriam mais tarde.

 

Heróis ou Suicidas?!... É somente esta pergunta que predomina no leitor depois de terminar a leitura, fiquei com muitas questões, mas sem dúvida que esta questão vai durar para sempre na minha memória.

 

"Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazis destruíram 619 aldeias bielorrussas, juntamente com os seus habitantes. Em resultado de Chernobyl, o país perdeu 485 aldeias e povoações. Destes, 70 foram permanentemente soterrados. Durante a guerra, 1 em cada 4 bielorrussos foi morto; hoje em dia, 1 em cada 5 bielorrussos vive em terrenos contaminados. São 2,1 milhões de pessoas, das quais 700 000 são crianças."

 

"Uma ucraniana vende no mercado grandes maçãs vermelhas: «Quem quer maçãs? Maçãs de Chernobyl?» Alguém aconselha: «Ó mulher, não digas que são de Chernobyl, que ninguém tas compra.» «Não se preocupe! Então não compram! Há quem compre para a sogra, há quem compre para o chefe.»"

 

"Esta é a minha história... Contei-a... Porque comecei a fotografar?
Porque não tinha palavras que chegasse..." Víktor Latún, fotógrafo

 

"Percebi que só o tempo vivo tem um sentido... O nosso tempo vivo..." Valentin Borissévitch, antigo chefe do laboratório do instituto de Energia Nuclear da Academia de Ciências da Bielorrússia

 

"A arte é uma recordação. A recordação de que temos existido. Temo... Só temo que o medo na nossa vida substitua o amor..." Lília Kuzmenkova, professora e realizadora

 

NOTA: Tinha dado a esta leitura uma pontuação de 4 🌟, depois de fazer esta minha opinião, não me consegui conformar, por isso alterei a classificação para 5🌟. A autora, os protagonistas, os que sofreram, sofrem e ainda vão sofrer da consequência deste desastre nuclear merecem toda a minha (nossa) consideração e que todo o infortúnio de Chernobyl seja uma chamada de atenção para todos nós. 

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publicado às 22:00

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Opinião:

Aos poucos ando a perder o medo dos clássicos, e este foi mais uma óptima surpresa.
O único ponto contra é ele ser tão curtinho, apenas 90 páginas, só por isso é que não consegui dar-lhe mais do que 4 *.

 

Mesmo sendo tão pequeno, o receio de encarar a escrita de Lev Tolstoi tomou conta de mim, mas aos poucos fui entrando na leitura e apreciei bastante satisfeita o ponto de vista deste (pequeno) romance.

 

Ivan Ilitch é um burocrático ambicioso, tal como a maioria da aristocracia da época, que usam e abusam das vantagens de um Rússia corrupta ainda na era burocrática do tempo dos Czares.
Aquilo que hoje em dia apelidamos de "cunhas" é bem demonstrado neste livro, os cargos passam de pais para filhos, quanto maior for a influência maior é o cargo, os benefícios e regalias financeiras, tudo para poder ostentar perante a sociedade uma vida de luxos.

 

Mas até que ponto o ser humano é feliz com este modelo de vida? Esta é a questão que perturbar Ilitch, quando ele começa a perder o bem mais precioso do ser humano, a sua saúde...
Tolstoi descreve com toda a frieza a intensidade do sofrimento físico de Ilitch, a indiferença da sua família e amigos, que como abutres só têm interesse que ele morra o mais breve possível para poder ocupar o seu cargo.
Ivan Ilitch vai percorrer toda a sua vida e escolhas enquanto definha no seu leito de morte, será que as boas ações serão capazes de superar as más recordações?

 

Esta leitura fez-me compreender que todos devemos levar uma vida que nos faça feliz e o mais digna possível, independentemente das (muitas) vozes contra, pois só assim quando a morte nos chamar poderemos ter a certeza de que a nossa vida fez algum sentido.

 

"E só ele o sabia; os que o rodeavam não compreendiam ou não queriam compreender e imaginavam que no mundo tudo corria como dantes. Era precisamente o que mais atormentava Ivan Ilitch."

 

"Eu, eu deixarei de existir, mas que haverá então? Nada. Mas onde estarei, quando deixar de existir? É na verdade a morte? Não, não quero." (...) "A morte. Sim é a morte. E todos eles, que não sabem, que não querem saber. Divertem-se (ouvia através da porta o falatório, cantorias). Não lhes importa, mas hão-de morrer também. Imbecis! Vou primeiro, mas em seguida será a vez deles. Lá chegarão. Mas agora divertem-se, os estúpidos animais."

 

"O médico dizia que os sofrimentos físicos de Ivan Ilitch eram terríveis, e falava verdade; mas os seus sofrimentos morais eram ainda mais horríveis do que as suas dores físicas, e eram eles que sobretudo o torturavam."

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publicado às 18:00

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Opinião:

Infelizmente não é um livro fácil de encontrar...  Foi lido em ebook brasileiro. 

 

Este livro está envolto em bastantes polémicas, primeiro pensou-se que seria um relato pessoal do autor (apesar de ele nunca o ter confirmado) e todo o mundo se rendeu ao livro, inclusive o Elie Wiesel, depois descortinaram que o passado do autor em nada se assemelhava ao livro (mas não existem livros de não ficção, tem tudo de ser baseado na realidade), por fim com tantos altos e baixos na sua carreira o autor não aguentou a pressão (ou perseguição) e suicidou-se.

 

Apesar de ser um livro envolvido em certas polémicas, eu adorei esta visão da II Guerra Mundial. Se é inspirado em factos reais ou não, o autor nunca disse que era, talvez nunca saberemos, mas será que isso é tão importante na literatura? Verdade ou mentira eis a questão...
Mas independentemente dos factos referidos, certamente que terá sido uma realidade para muitas pessoas, de uma forma ou de outra, isso não tenho dúvidas nenhumas.

 

A premissa de O Pássaro Pintado (actualmente) não é nenhuma novidade, mas na altura em que foi editado (1965), foi considerado e aconselhado por muitos anos como um dos melhores retratos da II Guerra Mundial.

 

Uma criança de 7 anos é entregue pelos seus pais para (tentar) escapar à guerra, a mulher que inicialmente o acolhe morre acidentalmente e assim começa o percurso desta criança. Não sabemos o seu nome, não sabemos ao certo onde se situa a acção, simplesmente vamos acompanhando as dificuldades desta criança em criar laços com as populações nos vários sítios por onde vai passando.
Vão existir almas caridosas que sentem (alguma) compaixão para com esta criança, mas a maioria da sua jornada vai ser pautada por muita dor (física e psicológica), dificuldades e a angústia de lidar com o facto de ser somente uma criança.

 

Não é uma jornada fácil, eu tentei entender os dois lados, todos eles tentam, de uma forma ou de outra, sobreviver às atrocidades de uma guerra que não poupa ninguém. Acolher e esconder alguém naquele tempo, significava mais dois braços de trabalho e mais um pedaço de pão, mas ao mesmo tempo, podia ser uma bomba relógio que afectaria toda a comunidade.
Mas em muitos momentos temos a certeza de que esta criança não é bem recebida, porque tem uma pele mais escura, ou é até mesmo considerada um cigano, por isso, ficamos indignados com os mal tratados infringidos e não percebemos como é que uma criança inocente de 7 anos pode ser tão hostilizada e incompreendida, só pela cor ou aparência.

 

A meu ver, este livro teve um enorme impacto em mim, não só pela história da criança, mas porque foi o primeiro relato que li da II guerra mundial, que me mostrou o impacto da guerra na vida das populações civis e dos soldados, que de certo modo também sofreram bastante durante este período, muitas das vezes, divididos entre sobreviver ou (des)obedecer. O autor também destacou e enalteceu o Exército Vermelho, mas com bastantes farpas apontadas para o regime Russo.

 

Só os mais fortes conseguem ultrapassar as piores barreiras e isso também se aplica a nós leitores.

 

"Quanto a mim, sentia-me como aquele cão sarnento encontrado pelos guerrilheiros. Começaram por acariciar-lhe a cabeça e coçar-lhe as orelhas. O animal, felicíssimo, gania de felicidade e de gratidão. Depois atiraram um osso numa campina cheia de flores e de borboletas. O cão correu agitando a sua pobre cauda. No momento em que abocanhava todo orgulhoso o seu osso, os guerrilheiros abateram-no com um tiro de fuzil."

 

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Opinião:

"Tudo na vida tem

Um começo

Um meio 

E um foda-se" 

 

Esta foi a minha 10° leitura de 2018 e é o primeiro a receber 5 🌟. 

Segundo livro lido do autor Raphael Montes, "Vilarejo" foi o primeiro e já tinha despertado a minha atenção para a sua escrita e estórias fantásticas, mas este "Jantar Secreto" foi mesmo um autêntico repasto.

O autor não está traduzido em Portugal, por isso foi lido em ebook brasileiro.

Atenção, não tentem fazer esta leitura depois das refeições... 

 

Dante (o narrador), Miguel, Victor Hugo e Leitão são quatro amigos que vivem em Pingo d’água, uma cidade do Paraná, famosa pelo turismo religioso. Em 2010, cheio de sonhos e recém aprovados para uma faculdade do Rio de Janeiro, os amigos embarcam na oportunidade de mudar de ambiente e dividem o mesmo apartamento em Copacabana, dando assim início a uma aventura na cidade maravilhosa...

 

Fim de 2014, a alegria da mudança de vida para a cidade grande, já há muito se tinha transformado num autêntico pesadelo, o que nenhum deles fazia ideia era que iria piorar ainda mais. 

 

Miguel fazia uma pós graduação num hospital público, bastante distante do Rio de Janeiro, Hugo terminou a faculdade de gastronomia em 2013, apesar do seu talento vivia saltando de restaurante em restaurante, ganhando uma miséria como assistente de cozinha, Dante concluiu a sua formação em administração, mas deparou-se com a "crise" no mercado de trabalho, Leitão não se formou em nada, vivia fechado no seu quarto, engordando diariamente, mas é  um "expert" em informática. 

 

"Um sujeito estava andando pela rua quando deparou com um restaurante que vendia carne de gaivota. Pediu a carne, comeu, foi para casa e se matou. Por quê?”

 

É esta charada que vai despertar a solução dos seus problemas, uma ideia exclusivamente para resolver um problema que surge da consequência de um presente de aniversário ao Leitão, o objectivo é ser elaborado uma única vez, mas a ideia é tão inovadora, lucrativa e com um sucesso tão grande que se tornou num negócio sem precedentes. Porém, tudo pode ser mais perverso e perigoso do que o jogo de servir jantares secretos! 

Será que estes quatro amigos têm estômago para levar em frente um negócio tão macabro, como o de servir carne de gaivota (carne humana)?...

 

Sem dúvida que é uma leitura chocante, mas ao mesmo tempo (a meu ver) uma chamada de atenção para uma reeducação alimentar, uma farpa para a corrupção brasileira, o fosso egocêntrico entre ricos e pobres, o alerta para o sedentarismo e até uma (quem sabe) resolução / alternativa para diminuir a fome no Mundo...

Tudo Ingredientes perfeitos para ter um excelente "Jantar Secreto", ou quem sabe, uma dolorosa indigestão. 

 

Uma estória ficcional, que tem tudo para eventualmente (num futuro (talvez) não muito distante) se tornar uma realidade. Choca o conteúdo, mas será que a finalidade é assim tão descabida? Dinheiro, status e sucesso, hoje em dia é tudo o que conta para definir o que é, ou não possível...

Antropofagia, não é nenhuma ficção, aquilo que em tempo exigia algum tipo de ritual, ou até sobrevivência, poderá um dia ser uma realidade tão natural como ir ao talho e escolher um suculento naco de carne daquela vaquinha, ou porquinho que se sacrifica para alimentar a espécie humana... 

Não, não sou uma pessoa alarmista ou pessimista, mas sim uma pessoa consciente e realista... 

 

"Não entendo nada dessas coisas. Pra mim, Bíblia é feito catálogo da Avon: só abro pra fazer pedido." 

 

"As pessoas vinculam loucura a maldade e racionalidade a bondade. Segundo estatísticas, doze por cento das pessoas ditas normais são criminosas, assassinas ou perigosas. Enquanto isso, só três por cento das pessoas ditas loucas têm potencial ofensivo considerável. Isso significa que normais matam muito mais do que loucos. Se no mundo houvesse mais loucos, haveria menos violência."

 

"Nós nos abraçamos, sem dizer nada. Ainda que eu me sentisse mal pelo jantar, naquele momento pensei que, na escala de crueldades, tinha gente muito pior no mundo. Gente que desviava verba de hospital público, que traficava órgãos, que fazia vídeos de sexo com criancinhas. A perversão não tem limites. O ser humano é um bicho escroto por natureza. Não importa o que digam, todo mundo é assim. Rico ou pobre, negro ou branco, velho ou novo, não interessa. Somos todos iguais em escrotidão."

 

“Não precisa se condenar, garoto. Essa é a mesma ignorância que faz com que você não mate um bicho, mas coma a carne dele disponível no mercado. A gente vive com uma dieta inconsistente, suavizada pelo sabor. Temos pena do porquinho e da vaquinha, mas adoramos um bom bife. Meu pai já dizia que a beleza sempre ocorre no particular, enquanto a crueldade prefere a abstração."

 

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Opinião:

Desilusão, é a palavra que mais define esta leitura...

 

Depois de ter lido "Porque Escolhi Viver" da Yeonmi Park, fiquei um pouco angustiada com o modo de sobrevivência destes habitantes... Por isso já tinha vontade de ler este livro há algum tempo, mas o facto de custar 22€ (já com 10% de desconto), e de nunca o ter encontrado em promoção (nem mesmo na feira do livro de Lisboa) fez com que adiasse esta mesma vontade, por isso quando o vi na biblioteca tive mesmo de o trazer comigo, depois da leitura só fiquei contente por nunca ter cedido e pagar o preço pedido por ele, pois para mim não vale o preço exigido...

 

Liderado por um narcisista e completamente chanfrado da cabeça, com uma ideologia política muito aquém da desejada democracia, este país nos últimos tempos tem estado na ordem do dia, e só por motivos negativos, até mesmo esta participação nos jogos olímpicos, no meu entender, traz água no bico...

 

Ao ler estas 184 páginas foi como se andasse às voltas no mesmo sítio, não sei, esperava outra coisa desta BD, em vários momentos pensei que o protagonista fosse o único habitante de Pyongyang.

 

Acho que foi o tipo de traço usado nos desenhos, demasiado simples, sem grandes referências para poder fazer a imagem falar por si só, quer dizer, acho que as pessoas de Pyongyang não são propriamente as pessoas mais comunicativas do mundo, mas será que havia necessidade de as suprimir dos desenhos? Já são tão ignoradas pelo seu "carrasco", será que não havia maneira de lhes dar alguma visibilidade nesta história!...

 

Acabou por ser uma biografia muito pessoal, virada exclusivamente para descrever os dois meses que o autor passou a trabalhar na Coreia do Norte e o que fazia (ou não) nos seus tempos livres, o autor é colaborador do Estúdio de Animação SEK (Scientific Educational Korea)...

 

A única coisa positiva (se é que podemos chamar de positivo), foi (tentar) compreender que Kim Jong-un, quer fazer do seu país, mais propriamente Pyongyang, um paraíso para quem o visitar, um lugar capaz de rivalizar com muitas das cidades democráticas por este mundo fora, um reino construído por dois ditadores (pai e filho) do pior que pode existir, mas a intenção só não chega, e aliás de paraíso aquilo não tem nada!...

 

Uma das ilações retiradas desta leitura é que a Coreia do Norte é um país que não me transmite nada culturalmente, só tenho pena dos milhares de habitantes que sofrem diariamente para tentar sobreviver a mais um dia de vida miserável...

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Opinião:

Agatha Christie e Poirot nunca me desiludem, balançada por ser uma das histórias mais famosas e lidas da escritora, decidi enveredar por esta viagem. Mistério, suspense e muita astúcia do princípio ao fim. 

 

Como em todos os livros lidos da Agatha, nunca consigo descobrir o culpado e este não foi diferente, muitos suspeitos (pelo menos 12 pessoas de várias nacionalidades e idades), aparentemente sem nenhum motivo, com álibis aceitáveis e ainda com a ajuda de estarem parados e encurralados no comboio devido a uma tempestade de neve, que em nada ajuda na resolução e confirmação do caso.

Só mesmo Poirot, que por puro acaso se encontra no expresso do oriente poderá desvendar toda a situação. 

 

A única coisa que temos a certeza é que um passageiro é deixado vivo na sua cabine e encontrado morto, tudo o resto é mistério e pura especulação. 

 

Gostei de todo o desenvolvimento do livro, cada passageiro é interrogado individualmente, todas as hipóteses vão sendo exploradas e confrontadas, mas, apesar de arrojado e fora do normal, não gostei lá muito do desfecho, acho que o facto de ter referências a um caso antigo (que eu desconhecia) afectou o meu acompanhamento da leitura... 

 

"-Meu amigo, quando se quer apanhar um coelho, mexe-se-lhe na toca. Se ele estiver ali, foge, com certeza. Foi o que fiz." 

 

Certamente irei continuar a ler Agatha Christie até poder eleger o meu favorito. 

E para vocês, qual é o melhor livro da autora? 

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Opinião:

Depois do prazer que foi ler "Uma Praça em Antuérpia" (nunca me cansarei de repetir que foi através dele que conheci (verdadeiramente) Aristides de Sousa Mendes), não hesitei em ler este livro logo que soube do seu lançamento, Luize Valente está encaixada naquele núcleo restrito de autores que irei acompanhar sem precisar de qualquer opinião ou marketing comercial...

 

Gosto da escrita da autora, aquele ondular entre passado e presente, o emaranhado de situações que em determinado momento se interligam surpreendentemente de alguma forma, sempre com enredos fantásticos, ampliando o conhecimento com os factos históricos que apresenta e (até ao momento) tem apostado na minha temática favorita, quando se tem os ingredientes favoritos sem dúvida que teremos uma receita infalível.

 

Este livro não foi diferente, uma mistura de ficção e realidade, personagens fictícias, mas com factos bem reais. "Em 2015, a autora conhece Maria Yefremov, sobrevivente do Holocausto, já com mais de 100 anos de vida e lúcida, deu à luz uma menina, no chão de um barracão imundo em Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. O bebê foi retirado imediatamente depois do parto. Dona Maria nunca mais viu ou ouviu falar da filha". Este é um dos fios condutores do livro, que nos vai fazer chegar a Amália e Haya, duas desconhecidas que têm tanto em comum.

 

Amália, filha de mãe portuguesa e pai alemão, descobre acidentalmente o passado renegado do pai, uma bisavó que ainda é viva, a residir na Alemanha... Curiosa pela forma como o pai é intransigente em contactar com a avó (mesmo demonstrando estar numa idade e saúde frágil), ela mesma parte em direcção ao passado e decide conhecer Frida. Aquilo que Amália descobre vai muito além daquilo que imaginava, enveredando assim por uma busca à muito caída no esquecimento.

 

E é assim que vamos enveredar por segredos obscuros, que aos poucos vão sendo resgatados e formar contornos que tanto têm de hediondos como de esperança.

 

Com uma óptima cronologia histórica dos judeus romenos e húngaros, adorei conhecer o caminho da família de Haya, percurso elaborado de forma impecável, com bastantes factos históricos que desconhecia e que foram introduzidos de forma a não "maçar" o leitor. Factos que parecem (aos olhos de qualquer ser civilizado) insólitos e despropositados, mas que destruíram muitas famílias, muitas comunidades dizimadas, muito sofrimento infligido, físico, psicológico e também nas almas daqueles seres humanos, que só queriam compreender o porquê de tanto ódio, o porquê de serem tratados pior do que animais. Tantas perguntas e no fim nenhumas respostas!...

 

No final, quando parecia já não haver mais nada para desvendar, surge uma nova revelação, e vou de tal maneira embalada na história que quando chego à última página e não há mais nada, fico completamente frustrada, sabem aquela sensação de estarem a caminhar apressados e de repente caem num buraco, pois foi mesmo assim que me senti, literalmente sem chão...

 

Não gosto nada de ficar em suspense com os finais dos livros, podem por vezes (na maioria) não ter o final que desejava, mas têm que ter uma conclusão, neste caso fiquei em suspenso, acho que a história fantástica que acabava de ler merecia um final diferente e não tão "mexeruca"...

ATENÇÃO O PRÓXIMO PARAGRAFO PODE CONTER SPOILERS:
Queria mais respostas, queria saber o que Friedrich Schmidt escreveu naquelas folhas, queria que Amália confrontasse o pai com a descoberta da verdade, queria saber se a própria Amália conseguiria seguir em frente sabendo o seu passado...
Enfim, talvez o problema tenha sido meu e não percebi o sentido daquele final...

 

A autora diz que existe ainda uma misteriosa ligação deste novo romance com o anterior, já li "Uma Praça em Antuérpia" à dois anos e infelizmente não consegui encontrar o tal fio condutor, mas fiquei bastante curiosa, para saber qual será...

Também achei pertinente a Sonata "fictícia" que o maestro e sobrinho da autora, António Simão, compôs para este livro, com toda a certeza que se enquadrou muito bem e bastante sentimental...

Dêm também uma espreitadela ao site da autora aqui, está muito bem executado e já agora aproveito para dizer que adoro a capa portuguesa em vez da brasileira...

 

Como costumo dizer, há-de vir (muito em breve) o tempo em que a memória viva do Holocausto padecerá para sempre, por isso é óptimo que surjam estes livros para que nunca ninguém se esqueça do inesquecível...

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publicado às 17:00


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